Homenagem a Isabella Nardoni - (Canção) Luiz Duarte
CANÇÃO EM HOMENAGEM À PRINCESA ISABELLA
(O FIM DO CONTO DE FADAS)
Vivemos num mundo onde a inocência acabou. Mas faltava alguma coisa que servisse de símbolo - algo definitivo e representativo. Infelizmente esse fato que nos afasta completamente do mundo dos heróis, do sonho, e da pureza, aconteceu. Cinderela morreu. Quando (ao que tudo indica) o casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá torturou, sufocou, e por fim atirou a pequena Isabella pela janela para seu vôo da morte (não importa quem fez o que, em que ordem), estava ali determinando para sempre também a morte do que dentro de nós existe de mais sagrado: a inocência de acreditar que de alguma forma, em recompensa por tamanha dor, o herói consiga frear ou estancar o mal eminente. Tivessem Calígula, Hitler, Herodes ou Darth Vader uma filhinha de cinco anos de idade, dificilmente a jogariam pela janela para o encontro com a morte. No caso Isabella, seja qual for o desenlace judicial, a invejosa e ciumenta madrasta venceu: conseguiu silenciar para sempre Cinderela.
Em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fada, Bruno Bettelheim alerta para a função do conto como importante ferramenta no desenvolvimento do imaginário, das inter-relações humanas, e das percepções de significados da vida. Na construção da maturidade psicológica da criança, a inquietação proposta pela dramaturgia, acelera níveis altos de compensação pela ousadia do herói, e, ainda que fazendo uso de soluções mágicas em fusão com o real, sua vitória aquieta o espírito e alimenta a psiquê. Para as crianças, nada é mais importante nesse "sentido da vida", do que a presença dos pais e sua herança cultural -- e aqui complemento: a referência primeira e fundamental na construção de seu caráter, sexualidade, e segurança na investigação do mundo.
Fora o desfecho da tragédia, nem mesmo imaginado pela mente de Stephen King, o acontecimento provocado pelo casal que destruiu nossa inocência, causou um desserviço incalculável para a construção da psiquê infantil como um todo. Agora, quando as crianças lerem histórias como Branca de Neve, Cinderela, Rapunzel, A Bela Adormecida, etc, não mais acreditarão que os tiranos sejam derrotados no final. No mundo real, pais e madrastas, ainda que motivados por algo banal, serão capazes de esganá-las, triturá-las, cozinhá-las em caldeirões, e jogá-las por janelas. A favor desse casal frio e insano, não existe nem mesmo a alegação de crime motivado por cegueira e impulso passional, já que houve tempo para cortar a rede de segurança da janela (outro símbolo de proteção infantil), e lançar Isabella ao espaço.
Em meio à novela jurídica, entre alegações de culpa e inocência, um novo elemento surge: o escárnio da família de Alexandre e sua tropa de advogados, com a polícia, com a população, e com a própria justiça. Nossas leis precisam ser reformuladas e com elas todo o procedimento jurídico no Brasil. Enquanto isso não acontece, advogados sem escrúpulos e ética, por saberem seus clientes criminosos, baseiam-se em firulas e janelas abertas em procedimentos legais, para os livrarem da cadeia. Com isso algemam os próprios policiais e juízes, tornando a população perplexa. O exame de DNA do sangue encontrado no carro não foi conclusivo como sendo de Isabella? Então de quem é, se ela era a única a esvair sangue? Onde estava o casal num apartamento tão pequeno, quando uma "terceira pessoa" entrou, sangrou Isabella, esganou-a, passeou com ela por todo lado, cortou os cordéis da rede de proteção, atirou-a pela janela, limpou os rastros de sangue, e foi embora fechando a porta? E tudo em menos de cinco minutos, e no mais absoluto silêncio? Fazer-nos engolir tal tese é chamar a todos de palhaços.
Não interessa saber se serão presos, soltos, ou onde passarão o resto de seus dias. O fato é que hoje não existe lugar algum no planeta para eles. Não estou aqui fazendo papel de juiz, porque não estou propondo nenhuma penalidade. Apenas peço que parem de brincar com o meu bom-senso, já que mal também me fizeram quando liquidaram de vez minha inocência, e como dramaturgo não sei mais como escrever visando a redenção do herói.
Luiz Duarte
dramaturgo e diretor